segunda-feira, 21 de março de 2011

Testamento

Validem se acaso minha última amante vier me buscar, tenham a certeza sou um homem muito feliz!



Gostaria de ser original, mas, assim como a morte, também sou mediocremente óbvio, registrem-se pois, meus últimos desejos:

Faço questão que minhas orquídeas sejam distribuídas às mulheres que passaram por minha vida, mas só às especiais.

Àquelas que me deram frutos, dêem as phalenopsis sempre viçosas e duradouras; não gerarão mudas, apenas se fortalecerão e hão de liberar boas hastes que florescerão em breve futuro.

Pras que um dia me amaram, deixo todas as minhas dendobriuns de flores fartas e breves, que as amarelas fiquem com as morenas, as carmins com as mais pudicas e as tigradas a cada uma das mulheres que me arranharam as costas.

Coloquem-me num caixão barato, vistam-me a camiseta mais surrada, o jeans mais desbotado e aqueles tênis velhos coloquem-nos em meus pés, sem meias, com um pouco de talco.

Não me cubram de flores, apenas com aquela catleya labiata, com meus projetos inacabados e meus sonhos não realizados – serão eles que me farão lembrar quão apaixonante foi a vida que tive.

Liguem pros meus credores e avisem-nos que acionem meu fiador, o diabo e a ele acionem na justiça dos homens; aos meus devedores informem que é meu desejo que distribuam cervejas, champanhe, sucos e muito café. Quero o clima da última festa, quem sabe um violão e um piano pra eu dançar de rosto colado com a tal dama de negro, como se fosse a mais bela das amantes.

Quero os amigos brindando e cantando como se acreditassem que sou eterno, que contem piadas realmente engraçadas, que brindem sobre meu peito e mas não lhes permitam que o esquecimento de me derramar garganta adentro goles grandes do precioso líquido, como meu avô me ensinou!

Um gole de café pra espantar o sono, hei de estar acordado pra desvendar o mistério maior.

Quero alegria, felicidade, nada de lamentos ou cenas chorosas, quero confraternização nessa oportunidade única; não me tragam o silêncio nem a tristeza, quero o barulho e a algazarra dos tempos de criança, quero curtir esse momento da mais pura irresponsabilidade e se houver quem não possa fazer isso por mim, que me despreze e se retire.

Antes de abotoarem meu paletó de madeira, acendem um cigarro e coloquem em minha boca, depois me enterrem numa vala comum, de preferência ao lado de belas mulheres - detestaria estar em má companhia, cantem Let it be e me rendam uma última homenagem: sorriam, a felicidade deitou-se ao meu lado!

terça-feira, 1 de março de 2011

Perna pra que te quero

Eu, que sempre fui avesso às penetrações forçadas, passivamente deixei-me conduzir àquela sala escura e obedeci feito virgem embevecida, às exigências daquela sacerdotisa que haveria de profanar meu templo sacro-inguinal.

- Fique nu!

E eu pudicamente me semidespi.

- Deite-se aí!

E eu ansiosamente me deitei naquele altar.

Ela nem pediu licença e com a intimidade das amantes, sacou minha cueca, começou a levantar o herói dormente.

Puxa daqui, levanta dali, como se tocasse uma desajeitada, ameaçou qualquer reação com um daqueles aparelhos descartáveis de camelô, que percorria meus pelos pubianos com mais voracidade do que moto-serra amazônica! Fiquei feliz por não ser um !

De repente, não mais que de repente, sinto uma ardência, algo me penetrou! Socorro! Estou sendo arrombado!

A sensação é estranha, nova; não chega a ser dolorosa, só estranha. Tem algo percorrendo o meu corpo, sinto, mas não localizo...

- Você, agora, vai sentir muito calor, mas é assim mesmo! Será que minha sacerdotisa acha que nunca cheguei na vida? – Um, dois, três e já!

Uau! Isso só pode ser múltiplo orgasmo! Foi como se todos os meus orifícios orquestrassem uma reação sequencial e liberassem fumaça! Soltaram uma bomba atômica dentro de mim!

- Prontinho, foi bom pra você? Que falta de romantismo, esse profissionalismo me deprime!

Me tiram daquela cama de fetiches, sinto-me uma puta de alta produtividade, saio de uma cama pra outra, passo por umas três até chegar ao quarto onde parece que vai ter suruba: três camas, dois casais, uma morena jeitosa, começa me explicando que não posso me levantar, nem movimentar a perna por três horas e que vai...

Ui, a morena ta explorando minha virilha, meio desajeitada, com a mão pesada... Apertando demais! Pára de enfiar o dedo aí? Ta pensando que isso aqui é capô de fusca quando emperra?

Tudo bem que você tenha que estancar a femoral, mas nem por isso precisa fraturar minha bacia! Pra que esse tanto de compressas? E esse esparadrapo largo, que pega do meio da cocha e segue num “s” estilizado até a altura do rim? Sádica do cacete, amanhã que tem que sofrer pra tirar sou eu né!

Quer saber? Vai lá cuidar dos pacientes do protologista, não sabe fazer carinho sem machucar? Aqui não precisa apertar mais nada, eu quero é mais safenar!