Tá certo que morar num condomínio tem suas vantagens, nada de cortar grama, de lavar quintal, de fechar o portão, essas coisas que a gente sempre se esquece e resolve pagar pra que o façam, muito mais por comodismo do que por segurança.
Mas nem tudo são rosas, num condomínio sempre se corre o risco de ter como vizinho um sujeito excêntrico.
Biel é daquelas criaturazinhas adoráveis, mas que para minha felicidade, bem que poderiam ter nascido em cima do ene do norte magnético, não, melhor ainda, no marco zero de qualquer lugar muito, muito distante...
Garanto que é um daqueles exemplares de cabeças desproporcionais, olhos miudinhos, lábios finos, orelhas de abano, dono de uma expressão facial sádica e uma garganta de trincar cristais, uma daquelas vinganças da natureza contra a tranqüilidade, um atentado ao pudor auditivo, uma provação do amor em todas as formas...
O Biel é disciplinado como um monge tibetano, todos os dias, pontualmente as sete da madrugada, inicia o seu show de pirraças e entoa uma esganiçada ladainha de eu-quero, num tom crescente, e os já conhecidos e uivantes não-não-podes...
O Biel tem um amiguinho que se chama Vitor Hugo; esse deve ser parecido com uma daquelas gárgulas que guardam os beirais de Notre Dame, passa o dia tirando o pintinho e fazendo xixi nos canteiros, quando cismam de disputar um brinquedinho haja ouvidos!
Como eles sempre mexem nas minhas orquídeas, amanhã vou seduzi-los com iscas mais atraentes que as folhas e brotos, vou colocar saborosas balinhas espalhadas pelos corredores e induzí-los a cultivarem cáries tão monstruosas quantos as suas pirraças, na pior das hipóteses, faço como a historinha de João e Maria e conduzo esses pentelhinhos àquela avenida movimentada...
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
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